Um psicopata bem sucedido é alguém que se encaixa nos critérios de um psicopata, ou seja, que se dá bem em suas aventuras, tornando-se quase imune e quase incapaz de ser pego. Muito pouco se sabe sobre os sociopatas de verdade, justamente pela árdua tarefa de conseguir pegá-los. Já podemos começar a perceber algumas controvérsias assistindo os últimos episódios da sétima temporada. Desde quando psicopatas se importam com os outros? Demonstram sentimentos? Pensam (emocionalmente falando) antes de agir?

Michael Hall, que interpreta o personagem Dexter Morgan, o “serial killer” bonzinho de Hollywood, está cada vez mais perto de se deparar com o desfecho da Série de TV que o deixou famoso. Assim como o recente artigo no periódico psychologytoday.com nos fez pensar, alguns fatos recentes que surgiram nas últimas temporadas também instigam questionamentos acerca da veracidade de sua fama enquanto sociopata, psicopata, dissocial, chamem do que quiser…

Tirando o fato de Harry tê-lo ensinado – se é que isto é possível – o tão dito Código e também a interagir convincentemente com outras pessoas, seria mesmo possível equipará-lo a Jack Estripador, Eddie Glen, ou até mesmo ao “maníaco do parque”? As tendências psicopatas de Dexter tornam para ele  as normas sociais algo mais difícil de entender. Ele passa grande parte de sua vida tentando aplicar  as regras de Harry e observando outras pessoas na tentativa de as imitar. Pouco se sabe sobre a infância de Dexter, o que nos impossibilita de traçar um perfil estrutural adequado para seu psiquismo. Viu a mãe morrer, ficou banhado em sangue, matava animaizinhos e tudo mais…

Como essas características podem apenas ser desvendadas no âmago da infância de qualquer sujeito, poderia eu considerar Dexter como uma criança que chega até meu consultório. Seria preciso uma série de longas entrevistas preliminares com seus pais adotivos a fim de tentar entender um pouco mais sobre os enigmas fantasmáticos de nosso personagem, fazer surgir uma demanda de análise e, daí sim, dar margem para uma possível interpretação do caso. Mas como isso não é exatamente possível, nos cabe especular.

Abordaremos brevemente algumas questões técnicas:

 

Para o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Anti-social (F60.2, como está acostumada a classe médica a padronizar todo e qualquer indivíduo de acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, vulgo CID) são necessários alguns critérios:

A. Um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos três dos seguintes critérios:

(1) fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamento legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção; – Dexter sim.

(2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer; – Dexter também.

(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro; – Not so much.

(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas; – é discutível…

(5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia; – acho que não.

(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras; – não mesmo.

(7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa; – não quando se trata de alguém que se encaixa no código.

B. O indivíduo ter no mínimo 18 anos de idade.

C. Existirem evidências de Transtorno da Conduta com início antes dos 15 anos de idade.

D. A ocorrência do comportamento anti-social não se dar exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco.

Os indivíduos com Transtorno de Personalidade Anti-social freqüentemente se caracterizam por uma completa ausência de empatia com outros seres vivos, resultando em descaso com o bem-estar do outro e sérios prejuízos aos que convivem com eles. Esses indivíduos tendem a ser insensíveis e cínicos, apresentando maior probabilidade de desprezar os sentimentos, direitos e sofrimentos alheios. Podem ter uma auto estima enfatuada e arrogante e podem ser excessivamente opiniáticos, auto-suficientes ou vaidosos. Eles podem exibir um encanto superficial e não-sincero, ser bastante volúveis e ter facilidade com as palavra (utilizando termos técnicos e jargões capazes de impressionar alguém). Aposto que você se identificou em alguns critérios aí em cima… Pois bem, podemos encaixar Dexter em vários momentos, mas será que podemos dizer que se trata propriamente de uma sociopatia?

Não é a primeira vez que Hollywood se apropria das ideias básicas aprendidas durante “concepções teóricas em Psicanálise I” na faculdade. Muito antes disso Hitchcock, e até mesmo mais recentemente, Peter Webber – que deu início a trama de um dos mais famosos psicopatas da telona, Hannibal Lecter – já utilizaram conceitos da teoria edípica (sim, o Édipo mesmo) de Freud para criar os personagens mais horripilantemente transtornados que conhecemos.

A primeira temporada da série se resume basicamente em mostrar as descobertas de Dexter acerca de seus traumas infantis reprimidos que não apenas podem explicar a sua própria psicopatia, como também a de seu irmão. A diferença é que este cresceu sem uma figura paterna de referência, o que faz com que a dita psicopatia de Dexter, apareça de maneira mais razoável em comparação com a forma descontrolada que Brian achou para ser um assassino em série. Sem este tipo de comparação, Dexter nos seria apresentado simplesmente como ele realmente é: louco.

Esta distinção é importante para que possamos entender os próximos passos. Dexter se depara sempre com vilões que fazem exatamente o que ele faz, com a única diferença que Dexter é regido pelo seu código. Durante a segunda temporada, os flashbacks de Dexter remetem a cenas de seu pai lhe ensinando o código. Já na terceira temporada, esses flashbacks se transformam no que eu ousaria chamar de alucinações. Harry fala com seu filho. Isso já está me parecendo mais um episódio de dissociação psicótica, o que provaria que Dexter é mesmo bem fora da casinha. Mas, ao invés de interpretarmos assim, Hollywood, como especialista no assunto, nos faz entender que se trata de alguém diferente, bonzinho, ele segue um código, os outros não. Como se alguém com uma estrutura psicótica tivesse alguma noção de leis… falaremos disso em uma outra oportunidade, quem sabe.

Em palavras técnicas, partindo da estruturação do psiquismo, o código pode ser entendido como advindo de uma ordem simbólica, a cisão do interdito paterno. A partir daqui poderia dar início a discussão de toda uma tese, por isso, falemos em termos menos complexos: superego. Todos já ouviram falar, não? A lei, ordem moral, como é popularmente dito… Pois bem, resumidamente se trata do regulador dos desejos inconscientes. Sim, daqueles mais sujos e obscenos mesmo.

O fato de Harry representar para Dexter um pai, modelo de policial bonzinho que quer punir os criminosos aí a fora acaba refletindo nas ações do nosso protagonista que internaliza esse conteúdos, transformando-os em sadismo e auto-punição lá no superego, o que faz com que tudo isso seja projetado para fora, ou seja, nos outros considerados piores do que Dexter. Cada vez que este seral killer bonzinho se confronta com os vilões, esta ordem simbólica é ameaçada, forçando Dexter a se confrontar com seu lado malvado, que lhe é desconhecido, inconscientemente falando. Já explico. Cada fim de temporada ele acaba matando esses vilões principais que o fazem se deparar com ele mesmo, com seus desejos mais inconscientes. Poderíamos dizer que ele está matando uma parte de sí? Pulsão de morte? Que tipo de prazer ele está obtendo nisso?

A teoria de Freud fala bastante sobre o estranho, o desconhecido. As nossas experiências com o desconhecido, assim como explica Freud em um certo ponto de sua teoria, envolvem certa coincidência com o que nos é familiar e ao mesmo tempo não familiar, fazendo com que nos deparemos constantemente com a dissonância cognitiva de sentirmos, ao mesmo tempo, atração e repúdio pelo mesmo objeto. Qualquer semelhança com todo o alarde que a “Carminha” causou por aí é uma mera coincidência… Pode ser que seja um pouco chocante falar sobre a teroria sexual por trás disso tudo, mas para os interessados, aconselho o texto de 1919 das obras completas: Das Unheimliche.

Metaforicamente falando, esses encontros dramáticos de Dexter com seus duplos mau-caráteres, que não deixam de ser apenas expressões de sua própria psicose, são análogas à sua necessidade de trabalhar com seus próprios problemas.

Parte de nosso encantamento com a televisão é um fascínio voyeurista. É sim! Entretanto, estamos repelidos (e ao mesmo com medo), tanto e tão frequentemente com o que vemos, pois estamos fascinados. Dá pra entender?? Essa repulsão que às vezes pode ser transformada em prazer, muitas vezes não é agradável. Muitas vezes, é estranho. Não são apenas as pessoas e os lugares e os conflitos e os dramas de televisão da realidade fantástica na medida em que eles parecem muito com pessoas “reais” e os locais e os conflitos e dramas, mas o próprio mundo em que tudo isso ocorre é estranho. É um “mundo real”, que não é real. É ao mesmo tempo familiar e estranho…

O que é importante ressaltar é que os escritores e produtores não tentaram escrever sobre um psicopata de verdade, mas sim, acabaram misturando as qualidades de um psicopata com observações comuns sobre como nós estrategicamente interagimos com as pessoas no cotidiano.

A narrativa alucinatória de Dexter sobre seus dilemas psicológicos gera em nós questionamentos sobre as obscenidades e as normas sociais. Todos nós somo iguaizinhos ao Dexter e é isso que provoca essa estranheza, é isso que nos fascina tanto em Dexter. Por isso o sucesso da série?

Em outras palavras, estamos sempre imaginando formas ideais de nós mesmos em relação a um “código”, que reconhecemos como obsceno, mas que sinicamente bancamos a fim de gerenciar as pulsões de nossos desejos inconscientes. Todos nós fazemos isso, e em certo sentido, somos todos um pouco loucos. Esses outros (estranhos) são apenas projeções imaginárias que fazem com que Dexter (e a audiência de Dexter) construam seus próprios ideais de “eu”. As pessoas não são tão diferentes umas das outras, mas estamos neuroticamente obrigados a imaginar que elas são.

Por Otávio Pósnik

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