Em “Fios de Prata” nos deparamos com perguntas difíceis de responder. “Existiria o bem caso não existisse o mal?”, “Um Deus é mais importante do que seus seguidores?”.  Isso é apenas uma amostra do que encontramos em meio a futebol, deuses, viagens astrais, guerra, Tolkien, romance e muito mais que compõe este livro de fantasia e ótimo representante da literatura nacional.

O livro se passa em dois mundos, o real e o etéreo, que estão interligados pelos sonhos da população humana. Dentro do universo dos sonhos, existem três grandes deuses. Cada um possui um território usado para acolher os sonhadores da terra que são a fonte de poder divino. Os diferentes deuses possuem características distintas e seguidores compatíveis. Não é atoa que alguns transmitem sonhos e outros pesadelos. Abaixo dos deuses está Madelein, a Senhora dos Sonhos Despertos, que deseja ascender para um reconhecimento divino. Para isso, ela vai precisar da ajuda de um mortal.

O mortal em questão é nosso protagonista Mikael Santiago, apelidado de Allejo (personagem de videogame) devido à habilidade quase sobrenatural no futebol. Aos 22 anos ele é o melhor jogador do mundo e está envolvido na maior negociação da história do esporte. Mas depois de conhecer e se apaixonar por Ariana, uma ginasta brasileira, ele se vê obrigado a lidar com problemas que fogem da razão humana. Para isso, terá que se envolver em uma guerra divina, fruto da ambição dos deuses que ditará o destino de 7 bilhões de sonhadores,  e viajar até o inferno em busca da amada.

O título e a capa já dizem muito sobre a história. Fios de Prata ligam o corpo espiritual ao corpo físico. Ele é a diferença entre o sonho e a morte, visto que, se partido, o espirito não pode retornar ao corpo. A capa, belíssima obra de Kentaro Kanamoto, representa uma das cenas da trama.

O autor do livro é Raphael Draccon, carioca de 29 anos, também escritor da trilogia “Dragões do Éter”. É roteirista, avaliador de roteiros e script doctor. Trabalha na editora LeYa e foi um dos responsáveis por trazer a série “Guerra dos Tronos” para o Brasil. Por seu trabalho, ganhou o selo “Fantasy – Casa da Palavra” ,  uma das empresas do grupo LeYa. Os Nerds de plantão se identificarão com ele ao saber que Raphael também é colunista do blog Sedentário & Hiperativo e eventualmente participa do RapaduraCast.

A obra demorou sete anos para ficar pronta. Mesmo que, segundo Draccon ele seja capaz de escrever uma média de dez páginas por dia, a maior parte do tempo foi dedicada à pesquisa. É este trabalho que eleva o livro a altura de genial. “Fios de Prata” é repleto de referências sobre várias religiões e acontecimentos reais. Para demonstrar como os dois mundos interagem, o autor lista várias noticias do mundo inteiro, muitas delas reais, mostrando a influência dos deuses nas ações dos seres humanos.

A cada cinco segundos, uma criança morre de fome ao redor do mundo.                               Definitivamente sobram motivos para os demônios sorrirem.”

Existem muitos outros fatores que cativam o leitor. Um deles é a fluidez dos diálogos. Como estamos lendo a obra de um escritor brasileiro, não existe o processo de tradução. Isso traz uma sensação de naturalidade para o texto que faz com que nossos olhos corram pelas páginas. Além disso, Draccon incorpora um sentimento jovial e leve aos protagonistas que facilita ainda mais a leitura.

No início, o roteiro é um pouco embaralhado e é difícil entender o que está acontecendo. Mas acredite, este também é outro ponto positivo do livro. O protagonista Mikael é jogado em um mundo surreal e inacreditável para os valores humanos e aos poucos começa a compreender no que está se envolvendo e coloca lógica na situação. Esta é a maneira do autor transmitir o mesmo sentimento do protagonista para o leitor, que vai construindo a trama no decorrer dos capítulos.

Uma boa dica para facilitar a compreensão é ler e reler o prelúdio do livro. Dando uma atenção especial para os personagens Morpheus, Phantasos, Phobetor e a Senhora dos Sonhos Despertos.

Por tudo isso, o livro merece destaque na nossa prateleira. É muito bom ver o gênero de fantasia da literatura nacional sendo representada por nomes como Raphael Draccon. Ele é mais uma prova de que a nova safra de escritores brasileiros tem qualidade e promessa de bons lançamentos para o futuro.

 

5 condecorações.

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